Volume 1, edição anual - 2013 

 ISSN 2358-8624


 

ESTÁGIOS E VIVÊNCIAS NO SUS: ênfase na atenção primária em redes.

 

 

 

Andressa Carine Kretschmer¹; Camila Franceschi²; Géssica de Oliveira Rodrigues²; Jaqueline Sganzerla²; Rafaela Polidório Krauzer²; Sandi Felicete²; Ricardo Vianna Martins³.

 

 

(1=Apresentador; 2=Co-autor; 3=Professor orientador)

 

 

 

Introdução

 

O Sistema Único de Saúde-SUS é uma política pública em constante construção que provê participação e decisão popular, com vistas ao alcance da universalidade, integralidade e equidade da atenção à saúde individual e coletiva que são os pilares de sustentação desta Política de saúde (PASCHE & VASCONCELOS, 2006). Ordenam-se como formas de atuação nesta obra, a elaboração e integração de dispositivos de Educação Permanente em Saúde, que se compõe como política nacional através da portaria Ministerial nº 1.996 (BRASIL, 2007). Cabe ao SUS amparar tanto na formação em saúde, na formação em serviço, quanto na formação ensino e serviço, destacando-se nesse contexto o projeto de extensão Vivências e Estágios na realidade do Sistema Único de Saúde como uma das inúmeras estratégias de educação permanente em saúde.

Esta Vivência pode assumir metodologias diversas, desde que não se perca a processualidade da aprendizagem significativa, produzida de forma coletiva e individual e nem o protagonismo estudantil na exequibilidade da mesma. Deste modo, é projeto de extensão na Universidade Federal de Santa Maria, com ênfase na atenção primária em redes. A este Projeto, vinculam-se outras duas atividades de extensão – o Coletivo Social de Mudanças em Saúde – COSMUS e o Cineclube Cosmus Fotossíntese que de desenvolve de forma itinerante nos bairros da cidade de Palmeira das Missões, estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

A ênfase deste projeto de Extensão que compreende outras atividades tem como mote a atenção primária em saúde, pois se entende que é a porta de entrada e centro articulador do cuidado na rede de atenção em saúde. A atenção primária é, conforme (STARFIELD B, 2002), um nível de serviço de saúde que oferece entrada no sistema 

para todas as novas necessidades e problemas. É uma abordagem que forma a base e determina o trabalho de todos os outros níveis dos sistemas de saúde.

 

 

Objetivos

 

O presente relato tem como objetivo narrar e discutir a experiência de estudantes universitários no campo da saúde e afins na condução de projetos de extensão, sob a perspectiva do que pode uma atividade de extensão fomentar de mudanças na realidade sanitária e social.

 

 

Metodologia

 

O Coletivo tem seu desenvolvimento na cidade de Palmeira das Missões, estado do Rio Grande do Sul, Brasil. O presente estudo sobre as atividades de extensão utiliza- se da narrativa como forma de apresentar e problematizar experiência vivida por estudantes universitários na atuação e condução de projeto de extensão no campo da

saúde.

 

Ao considerar que a realização das atividades de extensão pode interferir na identidade subjetiva do sujeito, do mesmo modo que produz a atividade em si e que ao narrar o trabalho desenvolvido também ocorre esse processo de significação e produção de conhecimento, foi escolhida esta metodologia a partir do pressuposto em que há “profunda  relação  entre  o  desenvolvimento  da  identidade  de  um  indivíduo  e  suas versões narrativas de experiências históricas de vida” (SCHÜTZE, 2007, p. 8).

 

 

Resultados e Discussão:

 

O projeto Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde (VER_SUS) desenvolvido pelo Ministério da Saúde desde 2002 e elaborado pelo COSMUS  na  15º  região  de  saúde  do  RS,  é  um  dos  mecanismos  de  Educação Permanente em Saúde que visa à formação de sujeitos críticos e políticos para atuar no SUS. Esta prerrogativa vai ao encontro do objetivo pelo qual o Coletivo Social de Mudanças em Saúde decidiu se estruturar e se organizar. O mesmo é uma das atividades de extensão da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, a qual tem apostado no protagonismo  estudantil  e  em  mudanças  tanto  na  formação  em  saúde,  como  na sociedade e no SUS. O reconhecimento do projeto pela Universidade, já é um dos efeitos da realização desta atividade de extensão, posto que no início houve muitas resistências quanto à modalidade do projeto pelo fato de que o mesmo fosse conduzido 

por  estudantes  em  diálogo  com  serviços  de  saúde,  movimentos  sociais  e  docentes apoiadores desta iniciativa.

O  Coletivo  produz  suas  atividades  através  de  reuniões  semanais  realizadas sempre de forma horizontal, ao passo que inclui o método de auto e co-gestão por meio de rodas de conversa que viabilizam a participação e a emancipação da autonomia dos integrantes. Conforme CAMPOS, G W (2000), a co-gestão se torna uma, entre outras estratégias, para combater o predomínio da racionalidade instrumental, propor formas democráticas para coordenar e planificar as ações e fazer com que a experiência, o desejo e o interesse de sujeitos que não exercem funções típicas de gestão sejam visualizados e reconhecidos, dando empoderamento e estabelecendo relações construtivas entre os distintos atores sociais.

O COSMUS constitui-se atualmente por 31 graduandos e graduados em saúde e afins, sendo que todos os anos se propõe a abertura de vagas no segundo semestre para a inscrição e inclusão de novos membros para garantir perenidade e efetivação do grupo, com a preservação de membros a distância que participam ativamente das atividades e questões abordadas pelo coletivo através do grupo online do mesmo. São realizados também, por meio da articulação de coletivos estudantis organizados do RS, Encontros de Estudantes e Apoiadores na construção do VER-SUS das três macrorregiões de saúde com o propósito de compor e (re) organizar Coletivos Estudantis, proporcionar trocas de experiências e desenvolver ideias de promoção e intervenção na assistência à saúde integral dos usuários.

Este Coletivo atua pela luta e visa uma sociedade mais ativa, justa, igualitária e autônoma que estimule a promoção de uma saúde pública digna por meio do fortalecimento do movimento estudantil, das manifestações populacionais em geral, da disseminação de informações e pela inserção dos membros do coletivo em espaços de controle social, tais como, Conferências e Conselhos de Saúde, Comissão de Integração Ensino-Serviço Regional e Estadual, na instância dos Colegiados de Gestão Regionais e Estaduais, espaços colegiados de Cursos, Departamentos, Conselho de Centro, Universitário,  aproximação  e  participação  em  executivas  de  Cursos,  movimentos sociais, campesino e indígena.

Outra diretriz proposta pelo COSMUS é a sua inserção em bairros vulneráveis através do projeto de cineclubismo denominado Cine Cosmus Fotossíntese em parceria com a Estratégia de Saúde da Família (ESF) local. O mesmo reproduz filmes quinzenalmente com o  intuito de auxiliar tanto no processo  educativo quanto para 

proporcionar entretenimento aos estudantes de 10 a 18 anos de um bairro de Palmeira das Missões, o qual foi determinado pela demanda apresentada pela ESF. Condizem também com as diretrizes do coletivo o processo permanente político, a produção de subjetividade dos/entre os sujeitos e o fornecimento de espaços para estudo, análise e reflexão.

Estas atividades de extensão em conjunto com o projeto de Extensão VER_SUS com ênfase na atenção primária em saúde em redes têm provocado mudanças na comunidade de Palmeira das Missões, pois tem empoderado as pessoas a denunciar as cobranças no SUS, a reivindicar seus direitos, a desejar uma formação em saúde com coerência entre teoria e prática, diminuindo as distâncias e aproximando de fato ensino e serviço no campo da saúde. Entende-se que seja a educação permanente em saúde acontecendo.

Conforme CECCIM, R  B  (2005)  a  Educação  Permanente  em  Saúde  é  uma estratégia fundamental para a recomposição das práticas de formação, atenção, gestão, formulação de políticas e controle social no setor da saúde, estabelecendo ações intersetoriais com o setor da educação, submetendo os processos de mudança na graduação à ampla permeabilidade das necessidades/direitos de saúde da população e da universalização e eqüidade das ações e dos serviços de saúde.

Do mesmo modo que as atividades de extensão são potências transformadoras de realidades, a depender do modo como operam, a valorização, incentivo e provocação do protagonismo e autonomia estudantil são condições cruciais para ampliar horizontes, a capacidade de análise, intervenção e a qualificação na formação em saúde para que não haja indiferença perante os problemas sanitários e sociais determinantes em nossa sociedade.

Corroborando o exposto, permite-se dizer que o coletivo é uma alternativa viável para contribuir com o processo de formação, mesmo não sendo a única que incorpora questões em torno do eixo SUS, o mesmo aproxima o acadêmico com a realidade da saúde da região abordada, para que quando profissionais formados possam compreendê- lo e, assim, colaborar para seu desenvolvimento. É preciso ter em mente que a formação na área da saúde é, antes de tudo, um instrumento para transformações no setor saúde.

 

 

Conclusões

 

O Coletivo Social de Mudanças em Saúde, com ênfase na atenção primária em saúde  em  redes,  contribuiu  para  a  formação  de  sujeitos  críticos  e  políticos,  a 

preocupação com o social, a retomada da função social da Universidade, conhecer o SUS, e principalmente os modos de co e auto-gestão que facilitam o empoderamento, protagonismo, a produção de subjetividades e a educação permanente em saúde.

Deste modo, conclui-se que a extensão universitária tem potência para transformações na sociedade, na formação em saúde, no SUS, mas principalmente nas pessoas que estão neste processo de vivência e que ao mudarem agenciam novas mudanças. Ao passo que, desta forma, é garantida a permanência dos processos disparados como um compromisso das Universidades públicas com o público.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Ministério da Saúde, Brasília/DF, 2007.

 

 

CAMPOS G, W. Um método para análise e co-gestão de coletivos. Brasil/São Paulo, editora Hucitec, 2000.

 

 

CECCIM R, B. Educação Permanente em Saúde: descentralização e disseminação de capacidade pedagógica na saúde. “Ciênc. saúde coletiva”. vol. 10, n.4, 2005, 975-

986p.

 

 

 

STARFIELD B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia / Bárbara Starfield. – Brasília : UNESCO, Ministério da Saúde, 2002, 30p.

 

 

PASCHE D F, VASCONCELOS C M. O Sistema Único de Saúde. In: Campos GWS

 

et al. Tratado de saúde coletiva. 2 ed. São Paulo: Hucitec; Rio e Janeiro: Ed. Fiocruz,

 

2006.